sábado, 22 de agosto de 2020

 4.4.3 Multiplicação – o que reproduzimos 

Multiplicar é a capacidade de reproduzir uma espécie, matéria ou produto, conservando suas características originais, a partir de uma semente, padrão, parâmetro ou molde.

A semente é o principio gerador que preserva a espécie, conserva sua  essência e a faz multiplicar. O mecanismo da vida adotado por Deus segue esta dinâmica em toda a criação.  

A multiplicação da vida, através das suas variadas formas e espécies, é mantida e coroada pela benção de Deus. “Frutificai e multiplicai-vos” foi a segunda benção liberada por Ele sobre a raça humana, a primeira foi nos criar a sua imagem e semelhança (Gn1.26-28). 

Cientes de que a benção da multiplicação nos acompanha não somente no sentido da reprodução biológica, mas também no sentido moral e espiritual, devemos atentar para aquilo que temos produzido, pois  de alguma forma  poderá ser reproduzido por aqueles com quem temos mais comunhão e ascensão.

O importante trabalho de Barnabé em Antioquia demonstra isso. Barnabé foi devidamente distinguido por seu caráter e vida espiritual, que resultou no acréscimo de muitas pessoas ao Senhor (At 11.24).

Este trabalho se estendeu por um ano e foi realizado com a parceira do apóstolo Paulo. Isto é muito significativo, pois depois deste tempo de  convívio e ensinamentos ministrados por Barnabé e Paulo, os discípulos em Antioquia foram chamados pela primeira vez de cristãos (At 11.26), refletindo a identidade daquela comunidade que se espelhou na fibra do caráter e vida espiritual destes homens de Deus.


sábado, 15 de agosto de 2020

4.4.2  Obras - O que fazemos

Como vimos no tópico 4.4.1, o que somos está diretamente atrelado ao nosso caráter, assim como o que fazemos.

Nossas obras, feitos e frutos evidenciam o que somos e são manifestações práticas naturais, espontâneas e legítimas que se materializam, aleatoriamente, expondo a realidade do nosso ser. (Mt 11.33-35, Lc. 6.43-45)

É fato que a “arte da boa representação”, fundada na dissimulação e hipocrisia pode manter por algum tempo a pseudo-aparência de piedade, induzindo a feitos fabricados nos moldes da falsa bondade, mas o que fazemos, sobretudo na vida privada, denunciará a realidade do nosso caráter.     

Obras e feitos praticados na solitude, à parte das luzes, câmeras e plateias, sem a intenção de impressionar quem quer seja, são reveladoras e expressam o ser.

Elas manifestam nossos princípios, valores e crenças e fazem desvanecer a falsa aparência. Watchman Nee, certa vez, afirmou: "A obra reflete o caráter do seu autor". Afinal, o que fazemos é o que somos.


domingo, 2 de agosto de 2020

Trabalho – Instrumento de transformação, inclusive do caráter

 

Mas vocês sabem que Timóteo foi aprovado, porque serviu comigo no trabalho do evangelho como um filho ao lado de seu pai.
Fp 2:22 - NVI

 O trabalho é relevante não somente por se mostrar indispensável à subsistência humana, mas também por impor independentemente de sua natureza, característica, complexidade e dinâmica, uma série de exigências, regras, disciplinas e comprometimentos para sua execução.

 Isto pode refletir positivamente na formação ou lapidação do caráter do obreiro.

 No trabalho cristão não é diferente, as peculiaridades da sua realização muitas vezes marcadas por experiências dolorosas e aflitivas (2 Co 6.4.5) contribui para esta formação.

No texto referenciado acima, o apóstolo vincula a aprovação de Timóteo ao serviço que este prestou, juntamente com ele, no evangelho.

Certamente este trabalho, tão digno e ao mesmo tempo tão árduo, cooperou para a declaração de Paulo sobre a aprovação de Timóteo, e foi nesta rotina de trabalho, estressante e desafiadora, que Paulo visualizou a conduta e o caráter provado de Timóteo.

Paulo destacou que o trabalho conjunto deles, foi  produzido num contexto de relacionamento paterno-filial, afirmando que Timóteo se portou “como um filho ao lado de seu pai”. Isto nos permite entender que o respeito, a confiança e a obediência eram mais algumas distinções da grandeza do caráter de Timóteo.


domingo, 19 de janeiro de 2020

Discipulado – Relação de Compromisso (At 16.1)

Timóteo se converteu ao evangelho, provavelmente, na primeira viagem missionária de Paulo, quando este esteve em Listra e Derbe (At 14.6,7-20). Naquela ocasião, Timóteo deve ter ouvido o evangelho, visto a cura miraculosa de um aleijado de nascença, presenciado a aclamação calorosa do endeusamento dos apóstolos Paulo e Barnabé, visto o empenho deles em dissuadir a multidão do intento de oferecer-lhes sacrifício, e por fim, deve ter testemunhado a fúria deste mesmo povo no apedrejamento de Paulo, que culminou com sua pretensa morte. 
Se confirmado este cenário, Timóteo teve um início de vida cristã fortemente impactada pela palavra, vida e obra de Paulo.
Timóteo figurava como um dos discípulos na cidade de Listra e gozava de um bom testemunho entre os irmãos, e foi neste contexto que Paulo o chamou e o levou na sua segunda viagem missionária.
Desde então, eles se aprofundaram no relacionamento de discipulado, que tem como princípios básicos: o compromisso da autonegação, da disposição ao sofrimento e do acompanhamento em toda e qualquer circunstância (Mt 16.24, 10.24-26, 37-39, 8.19-22 ).
A retomada deste relacionamento ensejou o resgate da relação espiritual, paterno-filial, iniciada na pregação de Paulo em Listra.
Paulo, então, reiteradamente passou a afirmar a sua paternidade espiritual sobre Timóteo, (1Tm 1.2,18; 2Tm 1.2; 2Tm 2.1) que por sua vez, correspondeu estando com Paulo, servindo ao evangelho, como um filho ao lado de seu pai (Fp 2:22b).
Não discutimos aqui, os pormenores da relação de discipulado ou da relação paterno-filial, sob o enfoque espiritual, mas afirmamos que uma ou outra devidamente vivida nos parâmetros do ensinamento bíblico, é imprescindível para o teste e aprovação do caráter.    



   

sexta-feira, 1 de novembro de 2019


Devemos destacar, ainda, que o altruísmo era parte integrante da pregação do Senhor Jesus, na verdade constituía-se em uma condição   central e desafiadora para a relação compromissada com Ele. (Mt 16.24, Lc 9.23 e Mc 8.34)  
O Senhor impõe a autonegação,  redirecionando o foco dos seus seguidores para si mesmo, apresentando-se como o centro  de suas vidas, destronando e subjugando o ego com todos os seus reclamos, abrindo-lhes o caminho para o altruísmo.

domingo, 27 de outubro de 2019


a)   Altruísmo, Discipulado e Serviço – Fp.2.20-22

Continuando no reconhecimento de contextos importantes para o dokime – teste, aprovação do caráter, nos deparamos com o texto acima, onde o apóstolo faz considerações relevantes sobre o caráter provado/aprovado de Timóteo, apontando situações apropriadas para esta avaliação.

Altruísmo – Foco no outro

Podemos observar que o apóstolo destaca, primeiramente, uma virtude de caráter de Timóteo: Não tenho ninguém que, como ele, tenha interesse sincero pelo bem-estar de vocês, pois todos buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo.”

Esta afirmação, contundentemente, positiva sobre Timóteo é fruto da visão e constatação efetiva de Paulo, que apoiado numa relação real de proximidade, tal qual de pai e filho, (1Tm 1.2, 18; 2Tm 1.2, 2.1; Fp 2.20b) sublinha a sua virtude altruísta.

Livre da escravidão do egoísmo que tanto limita, bloqueia e apequena o ser, não o permitindo ver, reconhecer e agir a favor do outro, a não ser quando isto lhe traz benefícios, Timóteo pode manifestar o seu altruísmo, abençoando o próprio apóstolo e a igreja de Filipos.  
  
Timóteo estava focado no verdadeiro bem estar da igreja em Filipos. De forma desinteressada, sem a busca de retorno para o seu benefício, prazer ou satisfação pessoal. Ele estava dedicado, focado em identificar, avaliar e agir em prol da igreja, alinhado com interesses do Senhor Jesus.

(continua)

domingo, 20 de outubro de 2019


a)    Obediência nas Relações Interpessoais - 2 Co 2.9
 
A obediência é sempre cara para nós. Somos, naturalmente, desobedientes, inflamados pela vontade própria, soberba e arrogância, relutamos em nos sujeitar e acatar ordens e direcionamentos de terceiros, sobretudo, quando estas ordens e direcionamentos contrariam a nossa vontade ou se opõem ao que pensamos ou sentimos. 
Outrora, manifestávamos um caráter assaz contrário a obediência, resultado da herança maldita de Adão, (Ro 5.19) e insistíamos na nossa teimosia e endurecimento até ao ponto de sermos identificados como filhos da desobediência (Ef 2.2).
Em Cristo, porém, fomos feitos filhos da obediência (1 Pe 1.14) e nela devemos perseverar,  revelando uma faceta do caráter provado/aprovado, que desprovido de arrogância se dobra, espontaneamente, à vontade, ordem e orientação de outrem, especialmente, de Deus e de sua Palavra.
Alinhado com esta nova realidade, o ensino apostólico cimenta de forma sábia e equilibrada a prática da obediência, considerando-a necessária nas relações horizontais, Sujeitem-se uns aos outros no temor de Cristo.” (Ef 5.21) e, sobretudo, na relação vertical, o colégio apostólico, estabelece: É mais importante obedecer a Deus do que aos homens”. (At5.29)



Obediência e vínculos emocionais

No texto de 2 Co. 2.9 o apóstolo Paulo foi muito claro em apontar aos Coríntios que ele pretendia prová-los (dokime) e ver se seriam aprovados em tudo, isto é, na obediência. 
O contexto, segundo alguns estudiosos, é complemento do texto de 1 Co 5, quando o apóstolo exorta e ordena a igreja de Corinto na aplicação de uma ação disciplinar contra um dos seus membros.
 Aqui, notamos que a igreja foi provada, frente a um pecado vexatório e repugnante, sendo exigida sua obediência total a ordem apostólica para, inicialmente, aplicar a correção devida ao infrator, e, posteriormente, perdoá-lo e reconduzí-lo à comunhão da igreja.   
Devemos considerar que a visão paulina, ao apresentar a obediência como matéria de prova, naquele contexto, não foi exagerada por que a sua ordem passaria  pelo crivo de uma complexa rede de relacionamentos – a Igreja, constituída de uma diversidade de visões, juízos e interpretações individuais. Podemos ainda considerar que, certamente,  havia algumas pessoas mais próximas do infrator e outras mais distantes, tornando o primeiro grupo mais suscetível a um vínculo emocional mais forte com o infrator, o que pode ter influenciado, além do que já foi citado, na falta de unanimidade observada pelo apóstolo: A punição que lhe foi imposta pela maioria é suficiente”.(2 Co 2.6)
Percebe-se, então, que a obediência exigida e provada no cenário das relações interpessoais, marcadas por fortes vínculos emocionais, pode ser prejudicada depondo negativamente contra um caráter aprovado.
Por outro lado, o caráter aprovado, nestas circunstâncias, pressupõe a superação de sentimentos e emoções para o cumprimento do desafio da obediência, quando esta de alguma forma interferir numa relação interpessoal fortemente marcada pela proximidade e intimidade.